terça-feira, 11 de maio de 2010

Eu não tenho pressa

Durante os 11 semestres em que estou nesta faculdade, nunca vi um movimento com tamanha força, ou pelo menos tamanho volume, partir dos próprios estudantes. As assembleias ultimamente realizadas, tendo como principal pauta a perda de espaço para os estudantes da Funorte na Santa Casa, deixaram-me com orgulho dos colegas de curso. Mas a luta por esse espaço só não é mais coerente devido ao seu plano de fundo. A greve.
Enquanto a greve no Hospital Universitário é levada adiante por servidores que ganham menos de um salário mínimo, os docentes se unem para receber o valor digno pela sua titulação a partir do momento em que a conseguem. Duas causas extremamente relevantes. E me corrijam se eu estiver errado, mas o movimento foi julgado constitucional. Com todos os efeitos colaterais gerados aos acadêmicos e à população, é um dos únicos movimentos com força suficiente para garantir alguma melhoria à instituição. Ainda assim, com surpresa, percebi que a maioria dos estudantes se posiciona contrariamente à greve.
Essa contradição lança um questionamento: garantir o espaço da Unimontes dentro Santa Casa tem como objetivo manter a qualidade de ensino oferecida pela universidade, não é mesmo? Afinal, os estudantes se unem por melhorias, certo? O que, como eu disse, é algo que dá orgulho. Enquanto o contrato da Unimontes com a Santa Casa está longe de ser vencido, estamos certos em brigar pelo nosso espaço. Em valorizar a nossa universidade. Em lutar pelo benefício de todos, com o perdão do lugar-comum.
E é por isso que me surpreende ver tanta gente contrária à greve. Pois se pensamos em nos manter na Santa Casa, devemos pensar também nas melhorias do nosso hospital. E melhorar o hospital que carrega o nome da nossa universidade envolve também apoiar a valorização dos seus funcionários. E dos seus docentes.
Os alunos se revoltam contra a greve falando no interesse dito “coletivo” de se formar o mais rapidamente possível. Não se pode dizer que não seja coletivo, mas seria muito mais sincero tratar tal interesse como uma coleção de objetivos particulares, egoístas, fúteis. Formar-se mais depressa é um objetivo tão inadequado quanto se contrapor aos estudantes da Funorte apenas para poder ser o mais literal possível ao dizer: “Perdeu, playboy!” Questão de ferida narcísica.
É nesse contexto que eu vejo ideais tão incoerentes quanto querer acabar apenas com a greve dos professores para retornar logo às atividades do internato. E nesse caso o ensino seria prejudicado pelo pouco volume de pacientes, já que os mesmos estão sendo barrados pela greve dos funcionários. Mas lutar por um ensino prejudicado somente para alcançar logo o CRM deixa claro que a preocupação em acabar com a greve não tem nada de coletivo. Nem de construtivo.
Por isso é hora de deixarmos o egoísmo de lado. É hora de abraçarmos as nossas causas guiados por objetivos relevantes. De fazermos o que quer que façamos pensando em realmente melhorar os problemas da nossa universidade, os quais nos últimos cinco anos eu percebi serem inúmeros. Não adianta lutar pelo nosso espaço sem apoiar também os demais manifestos que defendem melhorias para a instituição de maneira geral.
O meu baile de formatura está marcado para o dia 18 de dezembro. Os contratos já estão assinados. Se a greve continuar, provavelmente eu irei curtir a festa e no dia 20, segunda-feira, estarei às 7 da manhã no meu estágio, que ainda não vai ter acabado. Se a reposição das aulas se prolongar além do dia 31 de janeiro de 2011, ainda que eu passe na prova de residência, eu não poderei entrar. Digo isso apenas para ilustrar que o 11º período, turma 47, é de longe o mais prejudicado por esta greve. O que deixa a questão narcísica de ter estudantes da Funorte na Santa Casa a ver navios.
Mas de todo modo, há que se estabelecer uma certa coerência no discurso de cada um. Qual a sua preocupação nesta história? A coletividade ou o seu próprio umbigo? A melhoria da sua universidade ou a sua auto-satisfação em estudar nela, além da sua vaidade em se tornar médico o mais rápido possível?
O que eu posso dizer é que eu não tenho pressa. E você?

Mário Diniz

6 comentários:

Carol! disse...

É sempre mais fácil ter um inimigo externo. Olhar pra dentro de si e ver os reais problemas não é apenas difícil, como também incômodo. E são poucos os que se dão esse direito, são poucos os que percebem que embaixo de 100 colchões tem uma ervilha.
Menos ainda são os que sabem, de verdade, aquela máxima -que não deixa de ser verdade por ser clichê- porque pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si mesmo.
Excelentes colocações, Mário. Espero que possam refletir verdadeiramente sobre isso.
bJ!

Carol disse...

Estávamos realmente precisando de uma colocação lúcida sobre a nossa situação enquanto acadêmicos na Faculdade.
Bom momento para refletir e continuar reunindo forças para lutar a favor de um ambiente de qualidade para todos nós. Parabéns.

Diego disse...

Concordo com alguns pontos que Mário comentou: a greve tem sentido de existir e deveríamos apoiar mais as movimentações. No entanto, percebo também no discurso um tom egoísta, que Mário tanto insiste em combater. Eu sou a favor da greve, mas sou mais a favor do direito de se posicionar, inclusive a greve só existe por causa desse direito individual. Duvido que Mário tenha questionado sem preconceito e com toda a atenção os alunos contrários à greve (particularmente os alunos do 11°período), para assim perceber as razões contrárias, e não ter a audácia, anti-democrática de chamar de fúteis anseios que podem ser determinantes para realizações futuras. Muitos podem estar contrários à greve, simplesmente pela vaidade de se formar rapidamente, mas outros apresentam dívidas, planejamentos, possibilidades e sonhos que serão influenciados, cujo o tempo pode ser fator primordial. Então, é um risco generalizar. Mesmo que eu ache egoísta a justificativa de alguém, isso não me dá o direito de atingir o outro, não considerar a pessoa. Posso até argumentar contra, mas a decisão de mudar a postura, abandonar algo planejado para lutar pela greve é de cada um. Na reunião da assembléia dos professores (na quinta-feira), o comando de greve tinha sempre o cuidado de não influenciar a posição de ninguém e garantir o respeito à decisão de cada um. Duvido ainda que Mário esteja envolvido nos movimentos, o que torna incompleto seu discurso. É difícil para mim dar credibilidade a essa fala agressiva.
Repito que sou a favor da greve, mas tenho que dar ao outro seu direito de se posicionar sem ser atacado dessa forma.

Agora, quanto à questão dos alunos da Funorte na Santa, eu concordo com Mário que é uma questão pequena frente a toda problemática atual da Unimontes. Porém, é compreensível a luta dos estudantes. Acredito que deve-se apenas ter o cuidado de ampliar a questão, colocá-la em seu devido lugar. A luta deve ser também pelo HU, e não só pela Santa Casa. Além disso, é bom lembrar que esta questão passa pela abertura de novas faculdades sem um planejamento adequado pelos responsáveis (governo que autoriza e donos das instituições). Por exemplo, essa falta de local para prática e essas medidas atrasadas de resolução podem prejudicar a formação de médicos, grande perda para a sociedade.

Um abraço a todos!!!

Diego

Mário Diniz disse...

Diego, adorei o seu comentário. Meu interesse ao escrever este post foi gerar uma discussão a partir da minha opinião, e certamente seu posicionamento contribuiu para abrir a visão de todos sobre a mesma situação. Eu concordo que há que se olhar sempre os dois lados, e concordo mais ainda com o direito de se posicionar. Independentemente do tom do discurso. Pois se ler de novo o seu comentário, vai ver que ficou tão ou mais "agressivo" que o meu texto. E isso não importa. Por mais audaciosos que possamos parecer, não considero arriscado manifestar opiniões. Só devemos evitar a fala vazia. E é isso que estamos fazendo. Parabéns pelo seu comentário.

Mário Diniz disse...

Diego, gostei do seu comentário. Meu interesse ao escrever este post foi gerar uma discussão a partir da minha opinião, e certamente seu posicionamento contribuiu para abrir a visão de todos sobre a mesma situação. Eu concordo que há que se olhar sempre os dois lados, e concordo mais ainda com o direito de se posicionar. Independentemente do tom do discurso. Pois se ler de novo o seu comentário, vai ver que ficou tão ou mais "agressivo" que o meu texto. E isso não importa. Por mais audaciosos que possamos parecer, não considero arriscado manifestar opiniões. E a falta de envolvimento direto nos movimentos não tira a credibilidade do posicionamento de ninguém. Nós só devemos evitar a fala vazia. E é isso que estamos fazendo. Parabéns pelo seu comentário.

Diego disse...

Obrigado pelo elogio e incentivo. A agressividade do meu comentário veio de minhas próprias características associado a seu texto agressivo. Em alguns pontos, acho a agressividade inaceitável, mesmo que seja só para instigar questionamentos.

Na minha opinião, A falta de envolvimento direto nos movimentos tira a credibilidade do posicionamento, ou, no mínimo, reduz a credibilidade. Quem vive a situação sempre traz um diferencial e não corre o risco de falar o comum. Além de ser muito fácil ficar de fora opinando sobre o que mal sabe ou vive.

Ah! O texto ficou bem escrito Mário! (não posso ficar só criticando, né?)

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